Viagem a Roma, by “low cost”

Coliseu

As companhias aéreas do tipo low cost são uma modalidade em ascensão na Europa e no mundo. Fui vítima de uma delas no fim de semana passado. Queríamos ir a Roma. Tínhamos amigos brasileiros com passagem comprada pra Itália que, em tom de piada, nos convidaram a comer uma “massinha” por lá. Proposta indecente, sem contar com o pouco que não nos sobrava de dinheiro esse mês. Mas a imperdível promoção de termos provisoriamente um canguru, minha sogra, em casa, em tempo integral, para cuidar do nosso filho e finalmente podermos, depois de tanto tempo em Madri, fazer uma pequena viagem a sós, foi irresistível. Assim, fizemos das tripas-coração para viabilizar a viagem. Viajamos de Ryanair, companhia aérea irlandesa, a maior low cost da Europa.

Antes de contar a minha “maravilhosa” experiência a bordo, valem alguns comentários mercadológicos. O modelo de negócio é simples e já conhecido: oferece tarifas a preços baixos, somente possível devido à constante redução de custos; vários vôos diários por avião; não possuem classe executiva; e todo o serviço a bordo é cobrado à parte. A bagagem acima de 10 quilos tem que ser despachada, e se paga 20 euros em média por cada uma – a bagagem de mão não ultrapassa esse peso e em tese não se pode nem levar uma bolsa a tira colo a não ser que caiba na bagagem de mão sem ultrapassar os 10 kg limite. Os maiores competidores da Ryanair sao easyJet, Air Berlin, Germanwings, Transavia e Vueling Airlines (española). Todas elas, em geral, fazem rotas por aeroportos secundários, e por isso é recomendável que antes se veja qual será o transporte do aeroporto até o hotel, caso contrário, pode sair o olho da cara e não compensar o baixo custo relativo da passagem.

Bueno, estava preparada para tudo isso, afinal, antes de que vocês me chamem da “burguesinha de Seu Jorge“, tudo parecia absolutamente razoável, e só me importava chegar sã e salva a Roma. O que não estava preparada era estar numa Feira da Sulanca chique, onde os locutores não param de falar toda a viagem, oferecendo de tudo. Descobri um bom nicho para os redatores de plantão, planejar os scripts das aeromoças e comandantes de bordo, que são sofríveis. Ali, me senti uma vítima total do mau texto, péssima entonação e produção, microfone estridente para um lugar minúsculo e abarrotado. Tudo no avião é vendido e divulgado quase que ininterruptamente as 2 horas de viagem de Madrid a Roma. As aeromoças e comandantes de bordo viraram vendedores ambulantes. Sem falar no sotaque marcante que torna difícil identificar em que idioma finalmente estão se comunicando, e assim dá igual venderem bocadillo ou solomillo, parece tudo a mesma coisa. Os sabores são cuidadosamente explicados exagerando-se nos superlativos, apesar da aparência duvidosa. Ah, e a raspadinha de Natal?!, raspou – ganhou, basta comprar o bilhete com a aeromoça por tão somente um euro, e você pode chegar a Roma mais rico do que o Papai Noel (- como assim?!) – pensei com meus botões: e jamais precisar viajar por uma Low Cost na vida!

Ah, também se pode fumar em pleno vôo. Desde que, claro!, se compre os cigarros sem fumaça com as aeromoças. Dica importante: não cobram por chamada telefônica, é permitido ligar o celular depois do avião decolar (se tem sinal, só Deus sabe). A distância entre os assentos é minúscula. Não se pode mexer na cadeira do avião sem incomodar o vizinho, ou você bate a perna, ou o ombro, ou o braço, etc., e se o seu vizinho de bordo é algum desconhecido, é um sucessivo: – perdon, desculpe, sorry, lo siento…

É verdade que as low cost se adaptam perfeitamente aos tempos de crise e viabilizam muitas viagens sobretudo para quem, em diferentes condições, não poderia voar de outra forma. Ao reduzir a oferta ao produto básico, diminuem custos significativos e repassam parte desses benefícios ao preço final. A questão é que a experiência poderia ser menos desagradável caso se adotasse um pouco mais de bom senso. De qualquer forma, estou convencida de que só vale a pena caso o deslocamento pretendido não seja nem muito pequeno para que seja conveniente a escolha do avião em detrimento de outro tipo de transporte, nem suficientemente longo para que a experiência do passageiro não seja realmente traumática.

Nos últimos anos, 60 novas aerolíneas de baixo custo foram criadas em Europa. Seria recomendável que essas companhias fizessem o seu dever de casa e não reduzissem o glamour de voar a tão pouco. Sinceramente, tive uma breve sensação de estar participando de uma daquelas Pegadinhas do Faustão. Bem, pensando bem, por Roma vale tudo; valeu até pagar o mico de comprar uma das loterias de Natal com a aeromoça. Já deu pra perceber pelo meu relato de que “raspou-não ganhou”, não é?! Cheguei mais pobre do que fui. A Ryanair que me aguarde, passarei pelo mico mais vezes. Ainda tenho uma lista interminável de lugares que quero conhecer por aqui.

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Cristina Alcântara, Madri/Espanha

Quando vi meu perfil escrito aqui, em GPS/Mappa, não havia me dado conta como tinha ficado esquisita (no mínimo), esta descrição tipo CV: "administradora de Empresas, mestra em marketing, doutoranda da Universidade Complutense de Madrid, sócia-diretora da HSM/Lukrem Marketing Direto." Em busca de outras definições, nada me ocorreu, no entanto. Agora, já foi! Resolvi assumir o CV mesmo. Perdão pela falta de criatividade.

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11 2009

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